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Edeliar Torres Saraiva



Profissão:
Professora de Língua Portuguesa
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Atualizado


Poema - Operário em Construção -Vinicius de Moraes- Sugestão de Leitura

    O poema Operário em Construção de Vinícius de Moraes me foi sugerido como leitura, por um amigo muito especial: Professor Wellington Neiva. Isso foi há muitos anos e sempre que o leio,é como se visse a "fotografia" desse professor.


    O poema “O operário em construção” escrito há mais de meio século, em 1956, descreve o trabalho como base da vida humana; descreve o processo de tomada de consciência de um operário, partindo de uma situação de completa alienação.


     (Parece que estou ouvindo o professor Welligton falar).




Leia o poema e sua análise:


O operário em construção


                                Vinicius de Moraes 




E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.


 




Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


 


Operário em construção – Análise


O poema Operário em construção foi  escrito  por Vinícius de Moraes em 1956 e pode ser compreendido como uma metáfora para a construção da consciência de um trabalhador. De modo geral, a obra de Vinícius tem traços  da  segunda e da terceira geração do Modernismo brasileiro, período em que os textos estavam fortemente impregnados de questões sociais e políticas.


 


A  primeira estrofe apresenta o  operário  por meio de uma comparação e uma  metáfora que o identificam como trabalhador da construção civil sem  consciência de sua importância social


Era ele que erguia casas

Onde antes só havia chão.

Como um pássaro sem asas

Ele subia com as casas

Que lhe brotavam da mão.

Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:

 

Nos  versos abaixo, as palavras liberdade  e escravidão são associadas não como ideias opostas (o que, em uma leitura imediata, induziria o  leitor a pensar em uma antítese), mas sim como um paradoxo – figura de linguagem caracterizada pela associação de ideias contraditórias. Tal  análise  justifica-se, uma vez que  o produto de seu  trabalho deveria garantir liberdade ao  operário;  no  entanto,  isso  não se concretiza conforme o  texto  progride até o  seu  final.


Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.



Em contraste com a alienação inicial,  o operário é tomado por uma súbita revelação e a tomada de consciência de que  tudo   à sua volta é  fruto de seu trabalho: “[...] casa, cidade, nação!/ Tudo o que existia/ era ele quem  o  fazia [...]“. A partir desse ponto, o  poema mostra  como  isso  passa a interferir em  seu  dia a dia.

 


Ah, homens de pensamento

Não sabereis nunca o quanto

Aquele humilde operário

[...]

O operário emocionado

Olhou sua própria mão

Sua rude mão de operário

De operário em construção

E olhando bem para ela

Teve um segundo a impressão

De que não havia no mundo

Coisa que fosse mais bela.

 

O  poema de Vinícius, como  outros  de sua geração, traz um importante questionamento a acerca das condições trabalhistas.  Os versos “O que  um operário dizia/ outro  operário  escutava” representam  as organizações sindicais. Por meio de metáforas,  a estrofe abaixo  texto promove uma reflexão sobre as desigualdades existentes entre as duas classes  sociais presentes no texto:


Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.



Os  versos seguintes mostram a  influência do operário sobre os outros empregados, até o momento em  que é delatado pelos colegas (“Como era de se esperar/ As bocas da delação/ Começaram a dizer coisas/Aos ouvidos do patrão.”). Como resultado, o  patrão ordena que o  funcionário seja “convencido” a mudar  suas convicções.

 


Dia seguinte, o operário



Ao sair da construção

Viu-se súbito cercado

Dos homens da delação

E sofreu, por destinado

Sua primeira agressão.

Teve seu rosto cuspido

Teve seu braço quebrado

Mas quando foi perguntado

O operário disse: Não!

 


A epígrafe que abre o texto é extraída do evangelho de São Lucas (Lc 5, 5-8). Na passagem bíblica, Cristo é levado pelo Diabo ao alto de um monte e ali é desafiado a adorar seu  opositor. O texto de Vinícius de Moraes retoma essa ideia por meio de uma estrofe em que o  operário é desafiado a  abandonar sua ética em troca de favores de seu patrão, após esse perceber que  nem  mesmo a violência o convenceria:


[...]


De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


[...]


 


Nesse poema, a lógica das relações de trabalho é apresentada por meio de uma metonímia.  Vinícius não  nos  fala  de um patrão e um empregado específico, mas de duas classes sociais que vivem  em  lados opostos:  “Via tudo  que fazia /O lucro do seu patrão/ E em cada coisa que via / Misteriosamente havia/A marca de sua mão.” O  trabalhador reluta e, ao dizer “Não!”, deixa explícito  que  sua liberdade de pensamento  e sua ética são seus maiores bens.



Fonte: Edeliar Torres Saraiva / Conversadeportuguês.com.br

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